A final que fez nascer um gigante
Entre tensão, silêncio e coração acelerado, um menino de 10 anos mostrou o que é coragem.
Flavia Cabral
4/8/20253 min read


Estamos no segundo campeonato do ano da categoria em que meu filho joga: o Pré-Infantil, que reúne crianças de 8 a 10 anos. No dia 6 de abril de 2025, em Ibiúna, o Torneio Início de Beisebol — Taça Honório Mukai reuniu times de todo o Brasil para dar início a uma disputa que só se definirá em dezembro, em Londrina.
Esse é o terceiro ano do meu filho no Pré-Infantil, o sub-10 do beisebol. Oficialmente, o segundo, já que ele entrou nessa categoria junto com uma turminha um ano antes dos demais, com 8 anos.
Os campeonatos de beisebol se estendem, geralmente, por todo o fim de semana. No sábado, Atibaia jogou a fase classificatória que definiria os confrontos de domingo. Depois de perder o primeiro jogo e ganhar o segundo, ficaram na Chave Prata — a segunda do campeonato. No domingo, venceram a semifinal e lá foram eles disputar a final contra Bastos.
Fazia tempo que o time não chegava tão longe. Acho que a última vez que jogaram dois jogos em um domingo foi há uns sete meses, ainda em 2024, com outra configuração de time (quem conhece o beisebol sabe: todo ano entram e saem atletas). Naquela ocasião, Atibaia havia perdido de lavada na semifinal, algo em torno de 12x0.
Pois bem. O jogo já durava uma hora e agora estava em sua última entrada. Estávamos atacando, na parte alta, e o jogo tinha virado de forma inacreditável. Estávamos perdendo por 5x3, e de repente — num trabalho maravilhoso dos rebatedores, rebatida após rebatida — viramos para 9x5.
Mas o jogo não acaba assim no beisebol. Os times precisam ter as mesmas chances de ataque e defesa — e, para nós, ainda faltava defender. Precisávamos fazer apenas três eliminações para conquistar a taça. Um resultado inédito — mas que só viria se conseguíssemos segurar o placar.
Yago, nosso canhoto, começou arremessando a última entrada, já no limite das suas bolas. Fez um trabalho tremendo, jogando quase todas as 55 que são permitidas na categoria. Conseguiu mais um out em uma rebatida curtinha que ele mesmo pegou e eliminou na primeira base. Mas os rebatedores adversários eram bons — e ele estava cansado. As bases logo se encheram. E, para piorar, outro rebatedor conseguiu uma batida curta e anotou uma corrida simples. O placar encostou: 9x6.
Yago olhou para o sensei com preocupação. O sensei olhou para a defesa, pensando no que fazer. E lá estava ele: Nico Cabral, meu filho. Aquele que sempre dizia que o que mais gostava era fechar o jogo. O treinador, que ainda não o conhecia direito, hesitava em colocá-lo. Mas Nico pediu — e o sensei de arremessadores, recém-chegado ao time, acreditou. Chamou.
Nico girou os ombros. Ajeitou o boné. Respirou fundo. E caminhou para o montinho, na altura dos seus 10 anos de idade. Passos firmes. Silêncio em volta. A tensão atravessava a cerca, os corpos, o peito.
Entra o primeiro rebatedor:
🎯 Strike.
🎯 Strike.
🎯 Strikeout.
A torcida veio abaixo. Estávamos tão perto, mas ainda faltava uma eliminação — e as bases continuavam lotadas.
O segundo rebatedor conseguiu uma batida curtinha na terceira base. O defensor corre, pega a bola e tenta o lance para o catcher, mas não dá: mais um ponto entra. 9x7. Bastos estava encostando e cheio de possibilidades. Todo mundo apreensivo. Não podia entrar mais nenhum ponto.
Terceiro rebatedor:
🎯 Strike.
😬 Ball.
Um desespero começa a tomar conta da torcida, que grita: — Nico, mais um strike! Mais um!
🎯 Strike.
Respira. Só faltava uma bola. A vitória estava ali, a um strike de distância. Nico levanta a perna e lança com toda a força e esperança. O juiz grita:
🎯 Strikeout.
Fim de jogo.
O arremessador se ajoelha no montinho, tomado pela emoção. O time inteiro corre em sua direção. Pulam nele, gritam, choram, vibram. Era ele ali, chamado para decidir.
E ele sabia que conseguiria. Pediu uma chance e entregou o que prometeu. Foi só um jogo de beisebol. Mas ali um menino descobriu o tamanho da própria coragem — e cresceu diante dos nossos olhos. GIGANTE.


Os campeões da chave prata da Taça Honório Mukai, 2025: Atibaia Pré-Infantil
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