Como Vocês Querem Que Eu Me Acalme?

Escola nova, vida nova, categoria nova — e sobre a importância de ter um lugar onde ele sabe quem é.

Flavia Cabral

2/25/20263 min read

O campo cresceu. A bola — japonesa, mais dura, mais pesada — mudou, e exige mais braço, mais controle, mais intenção. Só que quando ele a girou para ajustá-la nas mãos — já não tão pequenas, mas ainda não tão grandes — parecia que estava ali desde sempre, confortável, encaixada e conhecida. Como se ela mostrasse: você cresceu. E cresceu para mim. E eu continuo aqui.

Nico olhou firme em direção ao receptor agachado atrás do batedor, esperando para receber o lançamento. O mesmo amigo de sempre olhando-o através do capacete. Fez o gesto conhecido, apertou a luva e pediu a bola. O juiz gritou: – play ball!

E Nico lançou.

Ball. A bola saiu um pouco fora da zona de strike. Diferente do que tinha imaginado. Mas tudo bem. Foi só a primeira das 60 permitidas para um pitcher jogar nessa categoria.

Depois vieram 3 innings completos arremessando com tudo que aprendeu nestes primeiros meses de treino: curvas, retas, changeups, sliders — cada um com uma trajetória diferente, cada um uma armadilha diferente para o batedor. Ferramentas que no ano passado, não eram permitidas para proteger o braço ainda em formação. Agora, elas estão liberadas. E há algo simbólico nisso: novas armas para novos desafios. Essas possibilidades animaram tanto o menino, que parecia que ele estava abrindo um presente de natal toda vez que voltava para o bench.

No bat box estava um rebatedor talentoso e conhecido do ano passado pelas boas rebatidas. Depois Nico contou: – joguei uma curva tão linda para ele que ele só conseguiu bater bem fraquinho da minha mão. E riu-se de orgulho.

Quem vê ele ali, seguro no montinho, não imagina o que vivemos na semana anterior.

Ansiedade. Irritação. Eu sofri um layoff na empresa em que eu trabalhava há anos. Ele entrou numa escola nova, amigos novos, nova fase escolar. A casa diferente, a vida diferente. Explosões por motivos pequenos. Não era a lição de casa ou o cachorro que comeu o chinelo novo. Era o mundo ter mudado de tamanho e os desafios da vida adulta invadindo a tranquilidade da infância.

Naquele primeiro jogo, o nervosismo era visível — corpo firme, coração acelerado. Mas em algum momento, talvez quando reconheceu o que era sempre igual, ele se soltou. Fez piadas, deu risadas, vibrou. E o time ganhou os 2 jogos amistosos do dia.

No dia seguinte, a transformação ficou clara.

Ele voltou. Voltou a ser o menino animado, confiante, brincalhão, engraçado. Como se o beisebol tivesse organizado algo dentro dele. Como se aquele pedaço de terra fosse um lugar de retorno a si mesmo — o chão comum que dá segurança para sobrepor os medos e enfrentar o que mudou lá fora.

Quando a diversão é a mesma, os amigos são os mesmos, o treinador é o mesmo — talvez fique mais fácil atravessar o resto. Talvez o chão de um atleta seja o esporte que ele ama. Ou talvez seja algo mais simples: a certeza silenciosa de que, ali, ele sabe quem é e pode se reconhecer.

Não sei quanto tempo vai levar para tudo se ajustar a esse novo tamanho — a escola, os amigos, a nova rotina, um emprego novo.

Mas sei, com a tranquilidade de quem viu de perto, que o beisebol vai estar lá para ele. Que a bola continuará girando, sempre familiar, sempre pronta para ser lançada, sempre ali para ele. E talvez, para mim também. Enquanto ele quiser. Enquanto ele sonhar.

Ninguém diria que tudo tinha mudado.

Lá foi Nico, para abrir como arremessador o primeiro jogo na categoria nova. No montinho — aquele pequeno círculo de terra no centro do campo — parecia que tudo era igual. O corpo, mais crescido, se posicionava do mesmo jeito. O mesmo número nas costas. A mesma calça.

Mas não era.

Os meninos aquecendo antes do jogo com o sensei, o mesmo do ano passado.

Nico, no montinho, retornando ao jogo e a si mesmo

Nota da autora
Curiosidade: como amo neurociência e sou fascinada pelo cérebro, fui estudar sobre isso e descobri que essa sensação de 'porto seguro' no tem nome na psicologia: Base Segura. E que esse campo é fundamental para o desenvolvimento do córtex pré-frontal das crianças. Uma criança pode ter várias bases seguras e o esporte é só uma delas. É fascinante como o cérebro busca esses rituais para se acalmar e se regular e tudo que ele viveu ali me mostrou isso.

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